segunda-feira, 17 de julho de 2023

Memória esvaindo...

    Ontem (16), enquanto eu tomava meu banho, refletia sobre as minhas próprias lembranças de infância. Enquanto pensava sobre uma possível taça do Brasileirão para o Botafogo, me veio à cabeça os meus bisavós, os meus pais e o meu avô materno. Porém, tive de me esforçar um tanto mais para recuperar memórias que eram frescas para mim e que, hoje, com quase 35 anos, percebo que vão indo embora aos poucos...
    Há a possibilidade do meu time do coração, o Glorioso, ser Campeão Brasileiro em 2023? Há, e muita. Por conta disto, vi-me na situação de correr atrás da memória de o porquê eu não ter sido Botafoguense desde a minha infância. Meu bisavô, por quem eu era agarrada (até onde eu me recordo), era Botafoguense. Sua esposa, minha bisa, com quem eu convivi até os meus prestes 15 anos, era Flamenguista (e ai da gente se xingasse o time dela). Meu avô materno era Fluminense, com poster de jornal na parede da sala e tudo e, minha mãe, torcia para o Vasco. Por quê? Eu também não sei. Já o meu pai, com quem tive uma vivência diária até 1994, ou seja, até os meus completos 06 anos, era Gremista roxo, de você não poder presentá-lo com nada que pudesse ter um detalhe da cor vermelha (referindo-se ao time rival, Internacional). E eu? Eu era Vascaína. Talvez por influência da minha mãe, com quem eu era muito apegada.
    Tornei-me Botafoguense quando fui pela primeira vez no Maracanã. O ano era 2002, eu acho, e o Botafogo perdeu de virada para o Fluminense, por 3x2. Independentemente do resultado, senti a energia da torcida e me apaixonei, pois não era uma torcedora assídua do Vasco mesmo, apesar de sempre zombar (sim, com meus 12, 13 anos) os torcedores do Flamengo no bairro onde eu passei grande parte da minha infância, brincando na rua, correndo e jogando Taco.
    Aí é que está. O bairro, Vila Lage, lá de São Gonçalo, era onde os meus bisavós moraram durante muitos anos. Não consigo pensar se houve algum outro lugar que eles tenham residido, porque as fotos mais antigas e os relatos dos mais velhos sempre são referidos àquela casa. A comemoração do meu batizado também foi naquela casa, e eu consigo ter na memória, ainda, como ela era nestes tempos. Acontece que, antes do meu bisavô falecer, em 1993, eu acho que eles já haviam se mudado de lá, isso que não me recordo já muito, mas acredito que sim. Também lembro que, antes de falecer, em 2003, exatamente 10 anos depois de Bú (um foi dia 29 de outubro e, o outro, dia 30 do mesmo mês, mas ele em 93 e, ela, 2003), Mainha morou, junto com a minha tia, em outros três prédios, sendo o penúltimo no condomínio onde eu residia (ela no bloco 02 e eu no bloco 4). A última residência dela foi no condomínio no Centro de SG no qual o meu pai também resolveu alugar um apartamento, ficando mais próximo da gente (meu pai, diz minha mãe, sempre foi muito apaixonado pelos meus bisavós, principalmente por Bú, apesar de tudo o que ele fez lá em casa, com a minha mãe, que não cabe aqui, pois tento ao máximo buscar perdoá-lo, para que siga seu caminho). 
    Destes todos que citei, somente a minha mãe está viva - graças a Deus. Então, com os e dos demais, só me resta a memória, uma fotografia para lembrar da fisionomia e, atualmente, puxar algumas recordações pela memória que, como eu disse anteriormente, percebo que já estão sendo esquecidas por mim. Nesta casa do Vila Lage, após a morte da minha bisavó (que já não morava ali faz tempo), vivia o padrasto da minha mãe, o vô Gil. Este era Flamenguista e eu também era bastante apegada a ele, o que causava ciúmes no meu avô Walter, pai da minha mãe, o tricolor. Mas, como eu passei a minha infância naquela casa do Vila Lage, estava mais próxima do vô Gil e passava todos os finais de semana por lá. Ele modificou a casa, retirando o quartinho de Santos da minha bisa, reformando o banheiro, mas mantendo um quarto com uma estante imensa cheia de livros e quinquilharias do tempo do "Êpa" (adorava, por sinal!), uma cristaleira (que já soube que se foi com uma enchente que deu) e, se eu não me engano, deixou o chão batido, como antigamente. Ah! E fez uma piscina nos fundos da casa, debaixo do jambeiro (que eu amava), que tinha um quintal enorme. Porém, a fachada da casa foi toda modificada, o que me deixava somente na memória as lembranças dos meus bisavós sentados ali, na varanda antiga, e com a gaiola de passarinho de Bú pendurada na parede. Neste momento, consigo lembrar bastante desta imagem, mas parece fotografia, sem movimento, e a lembrança me vem em cor sépia. Doido!
    Mas por que tudo isso, garota, para falar de lembranças? Porque exatamente enquanto eu tomava banho, imaginei que o meu bisavô não viu o título do Botafogo de 1995 e isso me bateu uma tristeza, mas mais ainda por eu não estar conseguindo mais lembrar de muitas situações com ele. Tive de me esforçar e puxar meus pensamentos para relembrar três momentos com ele, que são os que mais me recordava, e já estavam indo embora: quando ele me deu uma laranja para descascar porque eu teimei que queria fazer isso e, ele, todo calmo, cedeu, mas depois tivemos um dedo cheio de sangue, claro; quando ele estava fazendo brigadeiro, enrolando, para um aniversário que eu não lembro de quem, e eu enfiei o dedo no prato do chocolate e fiquei com uma bolha no dedo; num Carnaval, em que ele ficou no portão com a gente, vendo o bloquinho passar, mas tinha colocado uma piscina de plástico pra gente brincar.
    Ainda lembro de todos eles, de suas fisionomias, de momentos mais recentes. Ainda tem a vó Veleda, mas eu só não a citei porque ela não tinha time, até onde eu sei (risos) e o vô Octávio, que eu não lembro mesmo, pois ele faleceu em 1990, parece, e eu ainda faria 02 anos no final daquele ano). Mas o que me pegou foi a lembrança do antigo, do que eu sempre me exaltei por conseguir recordar e, agora, tenho de me esforçar para lembrar. Sinto como se estivesse traindo aqueles que amei demais, em vida, e amo muito ainda, nos desencarnes. Será que a gente vai mesmo deixando de vivenciar aqueles bons momentos em nossa memória? Será que é uma "lei" natural da vida? Eu gostaria de não pensar nisso, mas eu sou o tipo de pessoa que a cabeça não para nem um minuto sequer e, muitas vezes, até me embolo na fala, porque estou pensando em mil coisas ao mesmo tempo (risos). Acho que só quero, agora, poder comemorar este possível título do Botafogo e dizer: "Aí, Bú, esse título é pro senhor!". Não quero perder nenhum momento que vivi, por mais que me apareçam à mente, agora, somente como fotografias que eu não fotografei em câmeras.

"A saudade é o que faz as coisas pararem no tempo". (Mário Quintana)